Tuesday, November 24, 2009
Corpo insano, mente insana.
Tive carinhos acidentados e acidentes no carinhar. Me doeram os borbotões, sangraram minhas canelas, mãos e arranharam minha cara, orelhas e cabeça. Fui muito costurado nos poros e suei para dentro durante muito tempo. Não me brotavam feridas, apenas os hormônios que me saiam pêlos pelos buracos do meu tecido.
Meu cabelo desruivou, minha barriga murchou e os resmungos continuam debaixo da minha pele de pelica. Os meus olhos jaziam cansados do bálsamo desgostoso da infância e dos muitos brinquedos idiotas que tive que engolir. Dos sonhos pueris que tinha, não restaram muitos pedaços, só pra dizer que ainda resta um mínimo de constrangimento e inocência dentro dos badalos da cachola que insiste em reviver um tempo que não volta mais.
Já nasci com dor, o amálgama da minha vida. O sentimento que prima pela minha existência, seja na tristeza ou na mais pura felicidade. A dor construiu os pilares da minha ignorância e dirimiu as controvérsias das minhas dúvidas.
Eu já nasci com 10 anos e sem hemorragia eu não vivo.
Pataca orgânico
Wednesday, September 23, 2009
Sobre o que vejo...
Dilacera essa âncora e escancara essa vara que impera aliciadora no meio da perna. Dispara essa espera agora, amadora senhora que declara seu tiro e reverbera cantora nessa voz que agoura e encara esse grande suspiro. Pantera que era, venera essa fera afora e separa teu choro pra outra hora.
Na próxima aurora, embora contrapopusera, teu mimo que sara a cada amanteigada sincera, impede essa rara e controversa demora, enganadora das tuas vestes e escultora dos teus transpiros. Ora, pecadora por ora e pagadora quando lhe retorna a penhora, prolifera a tara e sara quando aparece em outra seara.
Conspiro por vezes contra essa nobre pastora de gostos tão vis e patrocinadora de causas austeras. Dentro de toda megera mora e opera uma tutora traidora das próprias ulceras internas.
O mundo nunca foi tão dissimulado.
Pataca e suas metáforas...
Tuesday, September 08, 2009
O circo da pulga
Pulga, foge da minha mão.
Caso fosse um mero espectador, torceria por você contra mim. Torço sempre pelos subjugados e parasitas. Enfim, não meço esforços para a sua total e irrestrita satisfação. Se lhe fosse semelhante faria o mesmo, talvez numa perna mais bonitinha, mas, gosto, cada um tem um.
Não lhe julgo a atitude, lhe julgo a safadeza de não ficar pra ver. Seu prazer de pulga é enveredado pela sua forma prolixa de morder e não olhar o que acontece. Sinceramente, reveja seus conceitos. Nos meus momentos parasitas, sempre fiquei pra ver o que acontecia, numa mistura de medo e alegria. E se ainda fosse tão pouco visível como lhe é característica principal, seria ainda mais cara de pau. Morderia os lugares mais cabais, mais óbvios e deleitosos de sangue. Seria prazer do começo ao fim.
Se pulga eu fosse, causaria as maiores e mais prazerosas coceiras e saía de cada corpo felizão e de boca cheia. Portanto, aproveite essa brecha que lhe dou, mas não abuse em sua ceia. Uma mordida por dia e mantemos assim a diplomacia. Assim, você se sacia e eu mantenho minha sanidade conversando com você todos os dias. Ah, e me desculpe quando não volto pra casa, mas também não posso ser a sua única fonte de ideologia.
Vamos manter uma relação sadia, tá? Boa noite Pulga, boa poligamia.
Pataca se coça.
Ps. Toda noite eu tomo uma mordida. Antes eu achava que era mosquito, mas acho que é uma pulga mesmo.
Ps2. Não, minha casa não é um pulgueiro não!
Wednesday, August 19, 2009
O que não esqueço

Inunda passo na poça e afunda o piso no troço que enterra a tristeza na fossa e emerge do fundo do poço.
A posse de todo o pescoço endossa o amor pelo moço que coça no vosso desgosto e almoça o caroço que prende seu doce.
Esboce o jeito por vezes insosso e enlace o corpo nesse alvoroço. Acosse e abrace a carcaça até o momento em que peço pra que se satisfaça.
Trespasse esse descontento na face e siga em frente enquanto adoeço. Não lhe peço nenhum tipo de apreço e nem ao menos professo os inúmeros e felizes excessos. Confesso que compadeço, mas amadureço cada vez que anoitece.
Não desfaça todo o trajeto espesso e por vezes possesso em troca de qualquer preço. Recomeço, menos chato e sem rimas, mas reabasteço e te ofereço toda a minha pirraça. Mesmo que comumente isso fracasse, eu esbraveço toda minha arruaça.
Ainda compareço de forme dócil e tacanha e faço aqui um recesso impreciso, fomentado pelo adereço do amor que enaltece o começo avassalador.
Meça direito tudo o que mereço e impeça o regresso da condição de promessa. Cesso aqui essa desgraça de texto inconfesso e me expresso pela última vez sobre o que não esqueço: amo.
Pataca endoidece
Tuesday, August 04, 2009
Um conto infantil pra adultos

Essa é a mulher gigante.
De pernas longas e corpo desproporcional.
Uma pessoa mutante, com bócio nas pernas e tamanho descomunal.
Sua cabeça minúscula pensa nas coisas pequenas, que ela alcança com seus dedões em riste.
Mas do alto de seus braços turvos, ela vê o mundo com seu olhar triste.
E mesmo na praia, onde as ondas ficam na areia,
não há nada que a distraia, pois a solidão a sombreia.
Nos dias bonitos ela sai de casa, enorme recôndito de paralisia.
Acaba sempre nas fotos, titubeando entre o marasmo e a alegria.
A terra mal suja seus pés, pois não há areia que lhe caiba no sapato.
Já o céu, azul em seu esplêndido, mostra que há mais em seu formato.
Mas ela é ainda menor que os prédios ao fundo,
talvez a única coisa no mundo que entenda o que ela quer.
Na luz da manhã, sem porvir e nem torpor,
a mulher gigante aparece para dar todo o seu amor.
E as pessoas fogem, andando apressadas ao caminho do fim.
Ela, ao contrário, fica parada admirando sua própria sombra eternizando um pedaço de mim.
As pegadas que percorrem seu corpo e escalam seus ombros são meros devaneios tolos a lhe torturar.
Só servem de história que ela, relutante, nunca quer contar.
No caminho pra casa, bem longe do pé-de-feijão, a giganta se ajoelha em frente ao mar e, por alguns segundos, chora.
Por que esse corpo tão grande foi aflorar, ela implora.
Ninguém entende sua aflição. Pra ela, ser diferente nunca foi opção.
Afortunada em seu tamanho, a mulher perscruta: dos pés à cabeça são 5 metros de puta.
Pataca não tem talento pra contos infantis.
Ps. Foto da Tralalá, que nada tem a ver com o texto. NADA! Aliás, ninguém tem!
Friday, July 17, 2009
Uma dose de verdade

Minha soberba abasta a base da minha cabeça. Sussura solfejos a altura da lua e destrói em solavancos a grande beleza da melancolia. Seu choro contido e próspero se faz próprio de sua tristeza protetora de si mesmo. Esse escudo duro e inviolável em que vives não esconde a metáfora e a ironia da vida. Não perfaz a mediocridade do que sentes e nem enriquece de amor só dos outros. Sua linha tênue, desandada desde sempre, entre a marca e o propósito condiz com seus sapatos de longos saltos e sua vasta cabeleira sempre bem escovada. Suas cores são sempre artificiais, bem notadas combinações de amargura e sofrimento misturadas com essa vaga e indecisa felicidade que sentes vez em quando.
Nas noites claras, onde a luz da noite alumia mais os pensamentos, suas entranhas entram ainda mais pra onde ninguém consegue alcançar. Nos dias escuros, ainda mais soturnos que as noites mais negras, sua imprecisão se torna mais visível e transforma suas virtudes, até então duvidosas, em certezas efêmeras da sua personalidade. Você é mais você quando acha que está sendo má. Você soa mais falsa quando pratica o bem. Esse sereno que paira sobre as suas nuvens sucumbe a toda chuva que enfim possa lhe acertar a prosopopéia e limpar um pouco feiura da sua existência. Sua alma suja e infecta de preconceitos e superficialidades sujeita aos outros a absoluta e transparente medida da sua inconstância.
Seu andar, pé pós pé, sincroniza invertidamente com o balançar de seus braços, mão ante mão. Isso é irritante. Você é, sem dúvida, uma pequena porção daquilo que detesta. Você é, sem dúvida, uma porção generosa da sua insignificância.
Pataca não tem piedade ao escrever.
Tuesday, July 07, 2009
O que é realmente onipresente?
O que são as mãos de Deus ou as mãos divinas? Quais são elas e quem elas suportam de maneira quase insuportável? Quais os caminhos que elas percorrem entre os céus e quais as andanças que permitimos que elas nos guiem?
A dependência do nosso arbítrio, religiosamente falando, compreende a aceitação destes termos divinos ou a simples existência nos dá a possibilidade deste bônus da vida?
Sinceramente não tenho resposta pra essas coisas, mas é engraçado como as coisas convergem de uma maneira que nos fazem questionar, sempre, os nossos próprios dogmas e entendimentos mais sólidos, por mais que eles pareçam cada vez mais concretos.
Tenho, de maneira bem simplista e solitária, questionado algumas coisas que o meu ceticismo nunca deixou. E, apesar de parecer, não acredito mais em Deus do que acreditava antes. Mas, indubitavelmente, algumas coisas me deixam mais perto disso.
E em mais um aspecto da minha vida esse sentimento vem não por causa de mim, mas por causa de pessoas próximas que precisam mais que eu, pelo menos no momento. Não quero parecer altruísta ou coisa parecida, mas a dor dos outros ainda traduz melhor a minha religiosidade do que os meus próprios problemas ou a minha necessidade de fervor.
O meu Deus não parece tão próximo quanto ao que eu desejo às outras pessoas. Me basta a proteção de quem eu quero bem ou a quem eu não suporto ver sofrer. Acho que por isso nunca fui religioso ou nunca tentei ser. Divino é uma palavra que talvez ninguém nunca consiga explicar, mas tenho certeza de que alguns sentimentos traduzem muito mais essa crença do que a própria devoção a algo que o homem criou.
Thursday, July 02, 2009
Hiking clouds!

Ah, os pés sem chão. Os pés acima de tudo que tocamos e conhecemos. Encarando as coisas e escondendo – durante alguns minutos – a nossa capacidade de não esquecer das coisas. Tão importante quanto lembrar é esquecer. Tão importante quanto esquecer é aprender com esse esquecimento. Transformar as lembranças em coisas novas, reciclar e saber que as coisas acontecem sim por acaso, mesmo que esse acaso seja encarado como destino.
E se o destino for só esquecer das coisas ou não parar de lembrar nunca? De nada adianta a mediocridade da razão se a emoção e a adrenalina são as formas que encontramos de fugir das coisas que mais nos assolam. Numa analogia barata, é como se para secar o chão usássemos apenas água.
O que nos alimenta desesperadamente todos os dias é uma coisa que ainda não entendemos bem, uma coisa que está além do alcance da compreensão ou dessa razão que vos falo. Minha razão só serve para dar asas à minha imaginação.
Do alto da minha cabeça, onde meus olhos vêem e meu corpo pensa, os sentimentos se distinguem em duas categorias: as coisas que eu quero loucamente e as outras que não quero loucamente.
A única coisa em comum, é claro, é a loucura e a ânsia de saber distinguir entre as duas.
Pataca, no momento, sabe!
Thursday, June 25, 2009
Puro sangue

O sangue escorre pelos dedos e escarra na máquina o deleite vermelho e viscoso que veste um pedaço da mesa. Também assume a posição de líquido maior deixando a palavra suja e escura a cada apertar de tecla. Denigre a imagem branca da folha e acompanha violentamente o texto que marca – em preto – a luz fria que brilha e reflete na máquina cansada de apanhar a cada palavra escrita. A ferramenta que agora cospe uma tinta suada, aguada e infame é a mesma que escreveu ideologias, sonhos infantis e palavras límpidas e inocentes. Não domina a verdade, não calcula o risco e nem julga os adjetivos. Não mistura sentimentos e se concentra somente naquilo para o que está determinada. É calculista, cheia de parâmetros e investe em novas palavras que pouco dizem e, ainda assim, dizem mais que antes.
Nesse rabisco de sangue, entranha em forma de dor, permanece espessa a crença indigna e a possibilidade mórbida de começar a sujar outras formas de diálogos e expressões sentimentais.
Por fim, as palavras saem assim, meio sangue e meio falácia. Mas enfim, quer coisa mais orgânica que uma poesia escrita com sangue?
Pataca transfusa.
Saturday, June 20, 2009
Meu olhar de saudade

É esse o perfume que me toca. Esse que acabei de sentir e que ainda sinto, mesmo que tenha sido semanas atrás. O cheiro que me proporciona coisas inimagináveis e que aguça a minha saudade a níveis estratosféricos. Meu ânimo aumenta, meu coração aperta e viro criança a cada 7 minutos pra depois voltar a ser adolescente. Meu discurso fica mais animado, mais esperançoso e minha sinceridade se manifesta de maneira intensa, pois pra mim a verdade sempre foi extremamente sexy. Fico bobo, tolo, patético e, talvez essa seja a única situação em que me sinto bem com isso. Minha cegueira se faz presente simbolizando não a razão das coisas, mas a emoção mais pura que possa existir. Fico assim, meio afeto e meio medroso, meio ansioso e meio desesperado.
Esse é o perfume que eu quero e sempre quis. E não me amedronta esse querer absoluto, precipitado e crescente. Pelo contrário. Me afirma e me deixa mais seguro sobre quem eu sou e quem eu sempre fui. As coisas conspiram pra que eu seja menos do jeito que eu sou. Mas de uma maneira irônica e cômica, eu ainda quero ser o que sempre sonhei, apesar dos desmandos da vida.
Eu tô indo cada vez mais longe e as coisas me levam cada vez mais perto. Acho que o segredo é esse: ir o mais longe possível pra voltar rastejando pra onde e pra quem a gente se sente em casa. Jamais subestimarei o destino outra vez.
Pataca olha através da íris
Monday, June 08, 2009
Pataca News!
Não tenho tido tempo nenhum de escrever, mesmo que sejam essas escrotidões que costumo vomitar por aqui. Muitas novidades nessa minha vidinha.
Mudei definitivamente pra SP, mas pelo menos trabalho fazendo o que mais gosto. Não, não é bebendo. Agora me pagam pra escrever! Acho que valeu a pena ter largado o Direito (arghhhh!), o errado e todas as outras coisas que fiz nessa minha tenra e amável jornada profissional.
Eu, que sempre trampei solitário, de cueca no meu quarto, agora trabalho muito vestido - um frio da porra aqui - cheio de gente à minha volta e tenho rotina. Experiência edificante, com prós e contras, mas admito que já estava um pouco cansando de ficar por minha conta o tempo todo.
É isso. Vou voltar a manter o blog atualizado, pois esse espaço é puramente fisiológico pra mim. Só semana passada que não deu. Tava procurando apê, fazendo mudança, trampo novo e outras novidades também... mais pra frente, se tudo der certo, eu conto!
Abraço e beijos!
Pataca SP.
Tuesday, May 26, 2009
Traços, destino e infamidade!

Meu mar calmo anda agitado. Anda com ondas altas e poucas marolas. Bonança não se vê mais, nem mesmo no horizonte. Nem de longe parece a maré calma e torturante que assolava minha canoa. Nesse pedaço de mar preto por onde passo, arremesso as ondas pra cima dos outros com algum pudor. Aprendi - a duras penas - a ser assim, um pouco mais egoísta com os outros e mais fiel comigo mesmo, mas ainda sinto dentro do meu barco as ondas que batem nos barcos alheios. Isso também me fez assimilar um pouco melhor o agito do meu mar e a tornar meu porto um pouco mais seguro.
A proa aponta o destino que traço naquele filete que já desenhei faz tempo na minha cabeça. A popa desmancha alguns detalhes, deixando pra trás alguns sonhos frustrados, um pouco de arrependimento e a certeza marota e intermitente que assola minha rota. Só o que me importa hoje em dia é ir. Ir, mesmo que sem destino algum ou que seja esse aquele destino que foge das nossas mãos. Ir, mesmo que não haja razão ou que essa razão seja ainda maior que a própria vontade.
Meu mar cada vez gosta mais do desconhecido e meu barco já balança menos do que outrora. Será agora a minha viagem sem volta? Será agora meu partir sem retorno?
A verdade mesmo é que tanto faz, pois, se a canoa não virar, olê olê olá! (que infame!)
Tuesday, May 19, 2009
Every Breath you take

Esfalfei. Inspirei fundo naquela tarde já tarde da tarde. Respirei de novo ainda no meio da primeira expirada e caí de novo na rotina de cada momento da vida. Respiração. O ar suprimido no peito sai quente e viciado de mim. Sai expelido forte num bufo raivoso que não mais permite a volta ao meu corpo. Sou assim. Mando embora o ar sem raiva nem culpa e nem dou muito valor a cada crescer e descer do meu peito já cansado dessa maré que vive em meu corpo.
Ar. Ergo a cabeça para que o ar chegue mais fácil dentro de mim. Não chega. O coração palpita, os olhos cerram e a boca seca. Nada mais me importa. O último suspiro, demasiadamente longo, é também a hora que penso naquilo que deixei de respirar. Bloqueio, por convenção, a entrada de um novo ar, mais limpo, mais puro ou simplesmente diferente. Essa tentativa de crime contra meu corpo não exprime uma sensação ou uma vontade consentida. Exprime tão somente a verdade contida nesse corpo e mente devoluta.
Outros ares. Estão lá meus outros ares, ali, um pouco mais além. Estão lá esperando para serem respirados e encherem de novo meus pulmões com esperança. A esperança precisa ter a audácia do desespero para valer como o ar que se respira.
Esse ar, que me consome. Essa audácia, que muito me falta.
Pataca goosfraba!
Sunday, May 10, 2009
Sem sentido.

Estou cego a todas as músicas e não ouço mais o olhar da musa. A dúvida cobriu minha cara e descerebrou meus olhos. Me imaginou distante e me trouxe de volta no segundo seguinte, sem sequer me dar o prazer da poesia. Já a mim nenhuma cena soa mais torta e opaca do que a minha imagem em carne viva. Crua, a pele vermelha distorce a realidade e surta o pouco que restou do meu coração nu. E continua nu.
Estou surdo a todas as imagens e não vejo mais o cantar da musa. A certeza desmascarou minha cara e cerebrou meu método. Me imaginou mais perto e me levou além no segundo seguinte, me dando prazer e poesia. Já a mim, todas as cenas soam tortas e vívidas, como a minha imagem sem carne e nem pele. Crua, minha pele pálida converge a realidade e racionaliza muito do que restou do meu coração duro. E continua duro.
Estou cego e surdo a imagens e músicas. Não vejo e nem ouço mais o canto e o olho da musa. No segundo seguinte já não tenho razão e nem emoção, muito menos poesia e prazer. Já a mim, quanto mais vivo, mais fico incauto e minhas cenas ficam mais comprometidas com a minha carne, cerebral ou marginal. Crua, minha pele é a mesma de todos os dias e não mais mantém a relação promíscua com meu coração. Que continua nu. E duro.
Pataca nu e cru.
Tuesday, April 28, 2009
Boring!
Vamos direto para o refrão. Lá, onde a melodia fica mais festiva, onde a letra se repete e nos dá tempo pra pensar. Direto pro refrão. Sem partes. Vamos decorar tudo antes de prosseguir ou mesmo antes de conhecer o resto. Vamos cheio de ansiedade direto ao que interessa, sem pormenores, acordes introdutórios ou frases que construirão a história. Vamos direto, porque é lá que a solução chega e as coisas se resolvem. É lá que se criam os conflitos e onde se começa a aprender a resolvê-los. No refrão.
Se não tivermos começo, tampouco teremos fim. E é isso que eu quero. Só quero meios, sem nuances, sem modulações ou mudanças de tom. Começaremos nele, ficaremos neles em ato contínuo e, depois de tudo resolvido, entoaremos mais uma vez até grudar bem na cabeça. Estribilho. Quero bis só do refrão, sem as partes chatas e sem a dança pra acompanhar o ritmo. Só o êxtase, o clímax, o cume da vereda. Sem espetáculos de preciosismo, virtuosismo ou vaidade egocêntrica (sic). Vamos ser simples e objetivos, sem delongas ou meio termo.
Se não for pra ser assim, não quero. Não mesmo. Cansei de histórias bobas, tolas e com pouco significado. Cansei dos problemas que se resolverão, da insignificância de certas coisas e das rimas ao final dos atos. Aborrece-me a reclamação das primeiras linhas e a declaração de amor pusilânime das últimas. Enfastia-me os últimos acordes, normalmente decorados por finais felizes.
O refrão – esse sim! - é aquela parte onde as coisas não têm medo ou que as palavras fazem mais sentido. Onde a paz reina e as pessoas se apaixonam. É onde as pessoas se apóiam, se suportam e vivem decentemente. Onde não há maldade, enfermidade ou morte. É o lugar mais perto que as pessoas chegam de acreditar na felicidade. É isso que quero da vida. Um exato e precioso refrão.
Pataca é uma estrofe!
