
Minha soberba abasta a base da minha cabeça. Sussura solfejos a altura da lua e destrói em solavancos a grande beleza da melancolia. Seu choro contido e próspero se faz próprio de sua tristeza protetora de si mesmo. Esse escudo duro e inviolável em que vives não esconde a metáfora e a ironia da vida. Não perfaz a mediocridade do que sentes e nem enriquece de amor só dos outros. Sua linha tênue, desandada desde sempre, entre a marca e o propósito condiz com seus sapatos de longos saltos e sua vasta cabeleira sempre bem escovada. Suas cores são sempre artificiais, bem notadas combinações de amargura e sofrimento misturadas com essa vaga e indecisa felicidade que sentes vez em quando.
Nas noites claras, onde a luz da noite alumia mais os pensamentos, suas entranhas entram ainda mais pra onde ninguém consegue alcançar. Nos dias escuros, ainda mais soturnos que as noites mais negras, sua imprecisão se torna mais visível e transforma suas virtudes, até então duvidosas, em certezas efêmeras da sua personalidade. Você é mais você quando acha que está sendo má. Você soa mais falsa quando pratica o bem. Esse sereno que paira sobre as suas nuvens sucumbe a toda chuva que enfim possa lhe acertar a prosopopéia e limpar um pouco feiura da sua existência. Sua alma suja e infecta de preconceitos e superficialidades sujeita aos outros a absoluta e transparente medida da sua inconstância.
Seu andar, pé pós pé, sincroniza invertidamente com o balançar de seus braços, mão ante mão. Isso é irritante. Você é, sem dúvida, uma pequena porção daquilo que detesta. Você é, sem dúvida, uma porção generosa da sua insignificância.
Pataca não tem piedade ao escrever.

